quinta-feira, 18 de junho de 2020

O contrato social em John Locke


O indivíduo a partir do pensamento de John Locke (1632-1704)
Juntamente com Hobbes e Rousseau, Locke é um dos principais representantes do
jusnaturalismo ou teoria dos direitos naturais. O modelo jusnaturalista de Locke é, em suas linhas gerais, semelhante ao de Hobbes: ambos partem do estado de natureza que, pela mediação do contrato social, realiza a passagem para o estado civil. Na sua concepção individualista, os homens viviam inicialmente num estado de natureza como uma condição na qual, pela falta de uma normatização (regras, leis) geral, cada um seria juiz de sua própria causa, o que levaria ao surgimento de problemas nas relações entre os indivíduos.
Para evitar esses problemas é que o Estado teria sido criado. Sua função seria a de garantir a segurança dos indivíduos e de seus direitos naturais, como a liberdade, a vida e a propriedade. Locke concebe a sociedade política como um meio de assegurar os direitos naturais. Assim nasce a concepção de Estado Liberal, segundo a qual o Estado deve regular as relações entre os indivíduos e atuar como juiz nos conflitos sociais.

 
O pensamento de Locke...
            Como muitas pessoas veem os “homens das cavernas”? Na maioria dos casos, são apenas imagens estereotipadas (imagem preconcebida de determinada pessoa, coisa ou situação), que os caracterizam como “violentos e brutos, preocupados apenas em satisfazer, imediatamente, seus desejos”. Para Locke, essa imagem era um dado da realidade; por isso, para ele, esses homens vivam em “estado natural” ou “estado de natureza”.
De acordo com sua filosofia, todos os homens nasciam com três direitos: liberdade, propriedade e garantia de vida. Desse modo, no início dos tempos, lutar ou fugir eram maneiras para se defender esses direitos.
No estado de natureza eram livres porque não precisavam pedir permissão ou depender da vontade de outro homem; eram iguais pois, nenhum possuía nada a mais que outro, recebendo todos as mesmas vantagens da Natureza. A garantia de vida vinha por serem iguais e independentes, e por isso, os homens não deveriam prejudicar uns aos outros e poderiam punir quem viesse ameaçar a vida deles.
Para Locke, no estado de natureza os homens vivem em situação de paz. Porém, ele entende que esse estado de paz é ameaçado quando um homem coloca outro sob seu poder e o submete à sua vontade. Rompe-se, assim, o estado de natureza e instala-se o estado de guerra. Para recuperar o estado de paz, é necessário que os homens se unam em um contrato por meio do qual evitem os inconvenientes do estado de guerra.
Por meio desse contrato, reafirmavam-se os direitos naturais. Além disso, os homens concordaram que, para evitar que esses direitos fossem apoderados de forma violenta, deveriam eleger um governo, ao qual caberia defendê-los.
Assim, todos deveriam respeitar a vida, a propriedade e a liberdade, e o governo ou o Estado seria responsável para que isso não deixasse de acontecer, lutando com quem quer que fosse que tentasse desrespeitar essa condição natural.  A partir disso, para Locke, começou a civilização ou a cultura.

A importância do pensamento de Locke
Esse pensamento é importante porque foi sobre ele que o capitalismo encontrou uma das suas bases
teóricas para o seu desenvolvimento. Uma característica fundamental do capitalismo nascente era a propriedade individual e o fim da propriedade coletiva. O indivíduo tornou-se o centro da atividade econômica e jurídica. Ele consome e produz. Portanto, é em vista dele que são feitas as leis que organizam as relações sociais.
Para Locke, o Direito Natural é diferente do Direito Positivo. O Direito Natural seria originário da razão correta – assim como a natureza tem suas leis, o homem também teria, por natureza, as suas. Já o Direito Positivo seria o conjunto de leis que os homens criam para conviver em sociedade.       
Em Locke, a liberdade, a propriedade e a vida formam o Direito Natural de cada indivíduo. No entanto, para mantê-lo, o homem precisa conviver com outros que têm o mesmo Direito Natural; então, para que o convívio seja possível, os homens necessitam produzir leis positivasno sentido de inventadas – para a manutenção desses mesmos direitos naturais. Assim, a partir do Direito Natural de cada um, cria-se o Direito Positivo a que todos têm de obedecer.
Na filosofia de Locke, há a valorização do indivíduo como agente (aquele que faz) histórico e jurídico – o indivíduo faz a história e cria leis – é também responsável pela produção e aquisição do conhecimento, sendo a felicidade o objetivo último da realização individual.
Por isso, toda ação depende necessariamente do indivíduo. O tipo de governo que ele deixa existir, o tipo de relações sociais sob as quais viverá; enfim, sua felicidade ou tristeza não competem mais ao rei ou a senhor feudal, mas somente ao indivíduo.

Vamos refletir:
1-O que é, para Locke, o “estado natural” ou “estado de natureza” e que direitos possuíam os homens nesse estado?
2-Quando, segundo Locke, o estado de paz é ameaçado? Explique.
3-Qual a importância do “Contrato social”?
4-Explique o que é Direito Natural e Direito Positivo.
5-Em resumo, mostre como o homem sai do estado de natureza e entra no estado de cultura ou civilização.

Referência:
COTRIM, Gilberto; FERNANDES, Mirna. Fundamentos de Filosofia. 4ªed. São Paulo: Saraiva, 2016.
São Paulo (Estado) Secretaria da Educação.
Material de apoio ao currículo do Estado de São Paulo: caderno do professor; filosofia, ensino médio, 2a série / Secretaria da Educação; coordenação geral, Maria Inês Fini; equipe, Adilton Luís Martins, Luiza Chirstov, Paulo Miceli, Renê José Trentin Silveira.  -  São Paulo: SE, 2014.

Imagem1: https://pgl.gal/john-locke-defensor-do-direito-natural/ acessado em 01/06/2020 às 16h40




quarta-feira, 10 de junho de 2020


A LINGUAGEM E A LÍNGUA COMO CARACTERÍSTICAS QUE IDENTIFICAM A ESPÉCIE HUMANA

A língua:
            A língua precisa de um suporte, algo que a sustente para que ela exista e possa comunicar, ou seja, transmitir uma mensagem, esses suportes são: a fala, que tem como base física os sons, a vibração do ar; a escrita, que tem como base a imagem. E necessita de um animal que fale, ou seja, que torne esta língua capaz de existir.
            A língua falada depende do aparelho fonético, a língua escrita depende de mãos e habilidades de escrita. Os seres humanos ainda apresentam a língua de sinais que tem como base os gestos. Tais formas de comunicação, falada, escrita e gestual, todos com significados e tendo como intenção comunicação e interação é exclusividade da nossa espécie, a humana.
            A língua como produto humano, tem sua base na cultura, pois é a maneira como um povo desenvolve sua língua e a as maneiras de se comunicar estão ligadas as suas formas de vida. Temos assim, um processo de interação e complementação entre língua e cultura, uma vez que a língua torna a cultura e sua comunicação possível, mas, por outro lado, a cultura, também torna a formação de uma língua e sua promoção e divulgação possíveis. Portanto, língua e cultura estão profundamente ligadas.
            O exemplo disso está em que ao nomear algo ou alguém, classificar objetos, experiências, entre outras vivências humanas, usamos da língua para realizar estas ações e também usamos da língua para comunicá-las. Ao realizar tal classificação e comunicação, sofremos a interferência da nossa cultura e criamos a cultura de um povo, o que faz com que língua e cultura sejam indissociáveis (inseparáveis).
            Ao fazer parte de um povo, de uma sociedade, eu também conheço e domino sua língua e sua cultura, por isso é possível afirmar que: “A língua é o “saber coletivo” fundamental de um povo, de uma nação, de uma cultura. É fundamental porque, com a língua, os grupos humanos fundam sua identidade, por meio das palavras que organizam e nomeiam suas atividades para sobrevivência, suas crenças, seus valores, suas artes. Isto torna a língua o saber coletivo, mais bem repartido de um povo ou comunidade. Além disso, é um saber em contínua transformação e crescimento. Todos nós aprendemos a língua constantemente e todos nós ensinamos a língua constantemente. A língua de um povo, portanto, é um “instrumento valioso para a sua identidade”.
            Isto posto, observamos que a língua é fundamental para espécie humana, é ela quem permite ao ser humano comunicar os conhecimentos por eles construídos, possibilitando a transmissão da história, das orientações necessárias a sobrevivência e da cultura construída e que está em constante transformação, o que faz com que língua e cultura dependam uma da outra e estejam sempre ligadas.

A linguagem:
            A linguagem é um instrumento que nos permite pensar e comunicar o pensamento, estabelecer diálogos como nossos semelhantes e dar sentido a realidade que nos cerca.
            Quando nos referimos à linguagem, a primeira da qual nos lembramos é a linguagem verbal, tanto a oral como a escrita. Por meio dela, nomeamos objetos, formamos conceitos e articulamos nosso pensamento sobre o mundo, tanto o mundo subjetivo, nossos sentimentos, pensamentos, como o mundo exterior, aquilo que está fora ou que acontece fora de nós.
            Porém, existem outras formas de linguagem que usamos para nos comunicar.
            Vejamos então, como as linguagens são estruturadas e como elas podem se apresentar.

A estrutura das linguagens:
            Embora tenhamos diversas formas de linguagem, existe um sentido básico na linguagem, isto é, que
está presente em todas elas.
A linguagem é um conjunto de signos, ou seja, sinais que podem ser visuais, sonoros, táteis, etc. Este conjunto de sinais, tem como intenção, indicar algo, com isso, os signos quando reunidos transmitem um significado, ou seja, emitem, uma mensagem, para aquele que domina os códigos (signos) emitidos. O que faz com que, a língua falada, seja uma das formas de linguagem utilizadas para comunicação, e o receptor (aquele que recebe a mensagem) só compreende a mensagem se domina também os códigos (signos) que emitidos pelo emissor (aquele que emite a mensagem).


Tipos de linguagem:
            Ao longo da história da humanidade o ser humano desenvolveu diversas forma de linguagem como: a matemática, a eletrônica, artística que pode estar relacionada a esculturas, músicas, danças, pictórica (pinturas), cinematográfica, a moda, gestuais. Cada linguagem tem sua especificidade, isto é, sua particularidade, e seguem regras específicas de sua área. Por exemplo: a linguagem artística respeita as regras especificas do campo artístico, na pintura simetria, uso de forma geométrica, mistura de cores, porém, por ser mais flexível, ela abre a possibilidade de explorar essas regras e criar novos estilos e técnicas.

Linguagem, pensamento e cultura:
            Há então diversos tipos de línguas, linguagem e também de pensamentos. Há o pensamento
concreto, que parte da experiência sensível, ou seja, do que vemos, ouvimos e sentimos, e o pensamento abstrato que estabelece sua relação com coisas que não perceptíveis. O pensamento abstrato é responsável por criar conceito e noções abstratas e precisa da mediação da linguagem racional.
            Por exemplo: quando observamos uma praia com as ondas do mar, o sol escaldante, sentimos a brisa no rosto, essa percepção é concreta, sentimos a brisa, vemos e sentimos o cheiro do mar, ouvimos as ondas, sentimos o calor do sol sobre nossa pele.
            Quando pensamento quanto é 8 x 5 lidamos com a pensamento abstrato, pois não há na natureza, 8 e 5, eles são abstrações do ser humano para quantificar objetos, pessoas entre outros.
            Portanto, cada tipo pensamento irá adotar uma forma de linguagem. Para o pensamento abstrato a língua verbal e simbólica é a linguagem mais adequada para o desenvolvimento dos conceitos, permitindo o desenvolvimento de ideias, abstrações.
            Já o pensamento concreto, identifica-se melhor com a linguagem artística por exemplo, pois um pintor, ao pintar um quadro de um rio busca representar esta realidade em uma tela.
            Além de estruturar o pensamento, a linguagem mantém estreita relação com a cultura. Se por um lado, as várias linguagens fixam e passam adiante os produtos do pensamento sob forma de ciência, técnicas e artes, elas também sofrem a influência das modificações culturais. Nas línguas há modificações semânticas e de repertório a partir das novas artes, a reestruturação da linguagem responde a mudanças de valores, de anseios e de busca no seio da cultura de cada sociedade.

A importância da linguagem
            A linguagem é um produto humano bastante sofisticado que só a razão humana pode criar. Por isso, sua aquisição é um marco referente da humanidade. A linguagem é simbólica, estruturada e adequada à cultura dentro da qual se desenvolve, de maneira apropriada ao tipo de pensamento que vai comunicar ou expressar. Ela permite que o ser humano vá além do mundo vivido, do presente, para o mundo das ideias, da reflexão; permite que ele ultrapasse sua realidade de vida e entre no mundo das possibilidades. Que exerça, enfim, a atividade produtiva de criar sentidos para o mundo e para sua vida.

O que vimos:
- Que a língua é característica fundamental o ser humano.
- A língua é um saber coletivo, amplamente divulgado entre os membros de um povo.
- Língua e cultura estão fortemente ligadas, ambas interagindo e interferindo na construção e transformações sofridas.
- A linguagem é o instrumento de comunicação e pode apresentar-se de diversas formas: artística, cinematográfica entre outras.
- A linguagem é composta de signos e significados.
- A linguagem está ligada a construção do pensamento humano e a formação da sua cultura.
- A língua, linguagem, pensamento e cultura são exclusividades humanas que permite ao homem ir além, criar sentido para sua vida e transformar sua realidade.


Vamos refletir:
1-    Por que é possível afirmar que a língua é um “saber coletivo” mais bem repartido de um povo?
2-    Quais recurso são necessários para que a língua exista, para que ela possa comunicar?
3-    Quais são os recursos necessários para que linguagem exista?
4-    Que outros tipos de linguagem podem existir, além da escrita?
5-    Quais formas de pensamento podemos apresentar, e quais linguagem cada forma de pensamento usa?
6-    Qual é a importância da linguagem para a vida humana?


Referência:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires.  Filosofando: Introdução à filosofia.4º Ed. São Paulo: Moderna, 2009 (p.54-63).

COTRIM, Gilberto; FERNANDES, Mirna. Fundamentos de Filosofia. 4ªed. São Paulo: Saraiva, 2016. (p.160 a 168)

Material de apoio ao currículo do Estado de São Paulo - Filosofia - Caderno do professor - 3º Série - 2014 - 2017.



Fonte imagem 3: http://www.petadm.ufc.br/?p=5323 acessado em 02/06/2020 às 18h18


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Tem Calma- Pe. Fábio de Mello


Letra da música: Tem calma

Tem calma contigo mesmo e olha aonde vais
Espera um minuto, pensa no que farás
No meio da tormenta é duro navegar
E uma escolha incerta pode caro custar

Nem todo mau momento te faz fracassar
E em caminhos de pedras haverás de passar
Pois nem tudo na vida é como a gente quer

Mesmo sem sombras na terra o sol brilha no céu


Segue adiante, sem olhar atrás
Vive cada dia e nada mais
E o o que vier tu vencerás
Só tu tens a chave: abres ou fecharás

Tem calma na vida o jogo é de verdade
Pra ganhar a partida vai com força e coragem
São as regras do jogo é bom sempre lembrar
Diante dos desafios é preciso tentar

Tu és precioso acredite ou não
Mas o amor tem sua casa nos terrenos da dor
E assim como o ouro pelo fogo irás passar
E o que tens de melhor o fogo vai revelar

Ainda que chores, tu vencerás
Só aquele que perde sabe também ganhar
Segue adiante, sem olhar atrás
Vive cada dia e nada mais
E o que vier tu vencerás
Só tu tens a chave: abres ou fecharás (BIS)

Tem calma... tem calma... tem calma...

Fonte: https://www.letras.mus.br/pe-fabio-de-melo/1366629/ acessado em 25/05/2020 às 16h41

Fonte imagem: https://istoe.com.br/apos-criticas-padre-fabio-de-melo-deixa-o-twitter/ acessado em 08/06/2020 às 9h00


Atividade:
1-) Destaque uma passagem da letra da música que mais chamou sua atenção, ou que de alguma maneira, te ajudou a refletir sobre a sua vida.

segunda-feira, 1 de junho de 2020


Antropologia Filosófica – Uma reflexão sobre o ser humano

 

A condição animal como ponto inicial no processo de compreensão sobre o homem


Introdução
Este estudo tem como objetivo dar início à reflexão sobre os seres humanos, destacando a importância de admitir sua condição de animal dotado de um corpo que o aproxima e o distingue dos demais seres do planeta. Admitir essa aproximação e essa distinção requer esforço típico da reflexão filosófica, indiscutivelmente necessária para a formação ética e para a construção da convivência humana solidária. Afinal, uma das perguntas centrais da Filosofia, colocada de início é exatamente: Quem somos nós, seres humanos? E ainda: Qual é a nossa condição de transformar o mundo em que vivemos em um lugar melhor?
Iniciaremos a reflexão proposta por aquilo que nosso olhar constata de imediato quando mira um ser humano e a si mesmo, ou seja, começaremos pela evidência de que temos um corpo. E esse corpo nos remete, antes de tudo, ao lugar dos animais. As primeiras perguntas em nossa reflexão filosófica são: Que espécie de animal nós somos? O que nos caracteriza? O que nos marca como animais da espécie humana?

O saber sobre o corpo
            Estamos no século XXI. E toda extraordinária evolução das ciências e das explicações racionais e detalhadas dos fenômenos que envolvem nossa existência nos colocam perante desafios como a interpretação do corpo humano e de suas práticas cotidianas. Mas será que sempre foi assim?
            Nas culturas primitivas, o indivíduo não tinha consciência de possuir um corpo que interage num mundo de corpos e objetos. Não havia reflexão sobre a individualidade, e, portanto, a corporeidade objetiva não era percebida em meio a um mundo de corpos e objetivos.

Concepções filosóficas sobre o corpo
            Com o início da atividade reflexiva, o homem toma contato com sua individualidade por meio da introspecção. Sócrates inaugura essa atividade, levando o homem a identificar-se e à sua posição diante dos outros. Quebra a unidade do ser, dividindo-o em corpo perecível e alma imortal.
            Com Platão, corpo e alma assumem posições contrárias, antagônicas: a alma é eterna, pura, sábia, ao passo que o corpo é mortal, impuro, degradante. O corpo é uma verdadeira prisão que impede a ascensão da alma ao plano ideal e perfeito.
            O cristianismo retoma a concepção dualista platônica, fazendo imperar uma visão de corpo corrupto, pecaminoso, um empecilho ao desenvolvimento da alma, uma verdadeira “pedra no meio do caminho”...
            A Idade Moderna, com o advento da ciência experimental, inicia o estudo direto sobre o corpo como objeto de conhecimento, surgem a anatomia e a medicina científicas, que buscam as relações de causa e efeito inerentes ao funcionamento dessa “máquina orgânica”, como se convencionou chamar o corpo. No entanto, o corpo continuou dissociado da alma, jogado no lodo, ao passo que a alma era coroada como portadora da razão, da intelectualidade que tirava o homem da simples condição de animal.
            Para René Descartes, importante filósofo moderno, o homem constitui-se de duas substâncias: uma pensante, a alma, razão e sua existência, ao passo que a segunda substância, o corpo, é simplesmente uma res extensa, uma coisa extensa, que não tem nada em comum com a alma. A consciência e a reflexão filosófica situam-se no plano da alma, nada têm a ver com o corpo.

Os vitalistas
            No século XVIII, aparece uma corrente que se opõe ao mecanicismo – que compara o corpo a uma máquina – são os vitalistas. Diziam que o corpo não é uma máquina insensível, mas um ser dotado e sensibilidade, emoções, afeições. O princípio vital não é imortal, mas um conjunto de “forças que resistem à morte”.
            Por quase dois milênios o corpo foi, então, como que “uma pedra no meio do caminho” da existência do homem, sem que se percebesse que ele era a própria manifestação dessa existência. Mas, pouco a pouco, parece que o corpo foi sendo reabilitado. Lentamente tirado do lodo desprezível em que se encontrava, mas quase nunca chegando à igualdade de posição com a alma.


Concepção atual sobre o corpo
            Hoje parece que temos um homem um pouco mais preocupado com seu corpo, pois o caráter materialista
de nossa civilização ensina que devemos nos preocupar mais com essa vida mundana presente. Mas essa preocupação não é integral: por ter feito um pouco de ginástica pela manhã, o homem acha que seu corpo já está em “forma”, e sobrecarrega-o no restante do dia, alimenta-se mal, abandona o corpo, limitando-se a “rolar a pedra pelo caminho” em direção ao pôr do sol de sua existência.
            Na busca de uma beleza impossível, porque é fabricada pela propaganda, ficamos mais feios e perdemos a saúde. A filosofia procura nos mostrar que outra deve ser a relação que devemos ter com o corpo, e qual sua importância em nossas vidas. O corpo humano é o corpo que sente, percebe, fala, chama a atenção para o corpo que somos e vivemos.



Vamos refletir:
1)    Os seres humanos têm inicialmente uma condição de animal dotado de um corpo que o aproxima e o distingue dos demais seres do planeta. Escreva elementos que nos aproximam e elementos que nos distinguem dos outros animais.
2)    Como as concepções de Sócrates, Platão e cristã entenderam o corpo?
3)    Explique a concepção moderna que considera o corpo como uma “máquina orgânica” e compare com a concepção dos vitalistas.
4)    Como a sociedade atual entende o corpo? Existem padrões tidos como ideais de beleza? Escreva.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
COTRIM, Gilberto; FERNANDES, Mirna. Fundamentos de Filosofia. 4ªed. São Paulo: Saraiva, 2016. p. 154-157.
Ética e Cidadania: Caminhos da Filosofia: Elementos para o ensino de filosofia/ Sílvio Gallo (coord.); 18ª ed. rev. e atualizada: Campinas, SP: Papirus, 2003. p. 62-67.
GALO, Sílvio. Ética e Cidadania: Caminhos da Filosofia. 18ªed. Campinas, SP: Papirus, 2010. p. 103-109.

segunda-feira, 25 de maio de 2020


Platão – Um Alicerce da Filosofia Ocidental

Quem foi Platão?
Platão (427-347 a.C.) era ateniense e provinha de uma antiga família pertencente à nobreza da cidade. Seu nome verdadeiro era Arístocles, mas, devido a sua constituição física, recebeu o apelido de Platão, palavra grega que significa “de ombros largos”.
Foi discípulo de Sócrates, a quem considerava o mais sábio e o mais justo dos homens. Depois da morte de seu mestre, Platão empreendeu inúmeras viagens, período em que ampliou seus horizontes culturais e amadureceu suas reflexões filosóficas. Por volta de 387 a.C. retornou a Atenas, onde fundou sua própria escola filosófica, a Academia, nos jardins construídos por seu amigo Academus.

Dualismo platônico
Em sua doutrina, conhecida como teoria das ideias, Platão propôs uma ideia sobre o ser dualista. Para ele, existiriam duas realidades opostas:
                        - Mundo sensível: corresponde à matéria e compõe-se das coisas como as percebemos na vida cotidiana, isto é, pelas sensações, as quais surgem e desaparecem continuamente. Assim, as coisas e fatos do mundo sensível são temporárias, mutáveis e corruptíveis.
                        - Mundo inteligível: corresponde às ideias, que são sempre as mesmas para o intelecto, de tal maneira que nos permitem experimentar a dimensão do eterno, do imutável, do perfeito.
Por exemplo: quando você pensa um círculo ele é sempre é perfeito, pois está no mundo inteligível, mas se você o desenhar, ele terá algumas irregularidades, sendo, portanto, imperfeito, pois está no mundo sensível. O ser (círculo) no mundo inteligível é perfeito, no mundo sensível é imperfeito.
O conhecimento, conforme Platão, para ser autêntico, deve ultrapassar a esfera das impressões sensoriais, o plano da opinião, e penetrar na esfera racional da sabedoria, o mundo das ideias. Para atingir esse mundo, o ser humano não pode ter apenas “amor às opiniões” (filodoxia); precisa possuir um “amor ao saber” (filosofia).

O método platônico
O método proposto por Platão para realizar a passagem da opinião ao saber e atingir o conhecimento autêntico (episteme) é a dialética. A dialética consiste basicamente na contraposição de uma opinião à crítica que podemos fazer dela, ou seja, a discussão e a negação de uma tese com o objetivo de purificá-la dos erros e equívocos permitindo chegar às ideias verdadeiras. Por exemplo: Pense na ideia que você tem de felicidade. Será que sua ideia é autêntica, verdadeira ou apenas uma opinião pessoal. Se você se dispor a conversar (dialogar) com alguém sobre esse assunto, possivelmente saíra do diálogo com um conhecimento mais amplo sobre a felicidade, porque o outro irá questionar suas opiniões e o fará avançar a um saber mais verdadeiro.
Platão dizia: “Se eu tenho uma moeda e você tem uma moeda e eu dou a minha moeda a você, você ficará com duas moedas e eu sem nenhuma; por outro lado, se eu tenho uma ideia e você tem uma ideia, e nós compartilhamos nossas ideias, cada um sairá com duas ideias”.

O Mito da Caverna

Platão criou em seus textos várias alegorias para expor suas doutrinas. A mais conhecida é um mito da caverna, o que nos ajuda a entender a evolução no processo do conhecimento.
O mito fala sobre prisioneiros (que desde o nascimento) vivem presos em correntes numa caverna e que passam todo tempo olhando para a parede do fundo que é iluminada pela luz gerada por uma fogueira. Nesta parede são projetadas sombras de estátuas representando pessoas, animais, plantas e objetos, mostrando cenas e situações do dia-a-dia. Os prisioneiros ficam dando nomes às imagens (sombras), analisando e julgando as situações.
Vamos imaginar que um dos prisioneiros fosse forçado a sair das correntes para poder explorar o interior da caverna e o mundo externo. Entraria em contato com a realidade e perceberia que passou a vida toda analisando e julgando apenas imagens projetadas por estátuas. Ao sair da caverna e entrar em contato com o mundo real ficaria encantado com os seres de verdade, com a natureza, com os animais etc. Voltaria para a caverna para passar todo conhecimento adquirido fora da caverna para seus colegas ainda presos. Porém, seria ridicularizado ao contar tudo o que viu e sentiu, pois, seus colegas só conseguem acreditar na realidade que enxergam na parede iluminada da caverna. Os prisioneiros vão chamá-lo de louco, ameaçando-o de morte caso não pare de falar daquelas ideias consideradas absurdas.

O que Platão quis dizer com o mito
            Platão quis dizer que, para chegar ao conhecimento verdadeiro é preciso sair das opiniões do senso comum, refletir criticamente, e enxergar as coisas na sua essência, como verdadeiramente são. Isso é filosofar.
Os seres humanos têm uma visão distorcida da realidade. No mito, os prisioneiros somos nós que enxergamos e acreditamos apenas em imagens criadas pela cultura, conceitos e informações que recebemos durante a vida. A caverna simboliza o mundo, pois nos apresenta imagens que não representam a realidade. Só é possível conhecer a realidade, quando nos libertamos destas influências culturais e sociais, ou seja, quando saímos da caverna.

Vamos refletir:
1-  Resuma, em forma de tópicos, quem foi Platão.
2- Descreva as duas realidades do ser propostas por Platão.
3- Como se chamava o método utilizado por Platão? Explique resumidamente.
4- Como se chama a alegoria mais famosa de Platão? Resuma em poucas palavras.
5- O que Platão pretendia dizer com a alegoria do mito da caverna? Sintetize.

REFERÊNCIAS:
CHALITA, Gabriel. Vivendo a Filosofia. São Paulo: Atual, 2002.
COTRIM, Gilberto; FERNANDES, Mirna. Fundamentos de Filosofia. 4ªed. São Paulo: Saraiva, 2016.
Imagem 1: Disponível em: https://beduka.com/blog/materias/filosofia/principais-ideias-platao/ acessado em 25/05/2020 às 19h25
Imagem 3: Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/484277766167237073/  acessado em 25/05/2020 às 19h40






Kant e a ética como ação conforme o Dever

Contexto Histórico:
Costuma-se caracterizar o século XVIII como o “século da moral”, por ter sido profundamente marcado pelo Iluminismo, um projeto pedagógico-político de construção da autonomia da razão e emancipação da humanidade que fornecia os meios intelectuais para uma ação consciente. É nesse contexto histórico e filosófico que se delineia o projeto ético de Kant.

 Immanuel Kant e o seu pensamento ético:
Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão, desenvolveu uma concepção de ética baseada na ideia de que as ações humanas são orientadas por intenções, não por finalidades, como afirmava Aristóteles. Kant destaca a noção de dever como intenção fundamental das ações humanas.
As perguntas básicas da ética pensada nesses termos seriam:
O que devo fazer?
Como devo agir?
Para Kant, a vontade não é simplesmente um instinto, um desejo; ela é racional, é resultado do exercício da razão. A razão implica a possibilidade da liberdade humana. Somos livres porque somos seres de vontade. Somos livres porque somos racionais. Somos livres quando temos nossa própria lei, quando nossa lei não nos é imposta por outros. Em outras palavras, somos livres quando somos autônomos.
Autonomia é a capacidade de governar-se por si mesmo, sem obedecer a outro. Para a filosofia iluminista, portanto, liberdade é autonomia, e esta diferencia-se de heteronomia, que é quando se segue as regras ou normas de outro, que não são da própria vontade.

O que torna uma pessoa ética?
Segundo Kant, não é o fato de alguém ter um grande talento proporcionado pela sua natureza, que o torna moralmente excelente. O que realmente importa é o uso que fará deste talento. E sobre ele, é o sujeito quem decide, usando sua liberdade para resolver o que fazer com as aptidões que tem. Portanto, a inteligência, por exemplo, pode ser muito apreciável, mas não é uma qualidade moral. E por que não? Porque ela pode ser colocada tanto a serviço do bem quanto do mal. A inteligência não é por si mesma boa ou má. Será boa se o sujeito tiver boa vontade ao usá-la.
          Assim, podemos usar a inteligência para ensinar, curar, alegrar e muito mais. Em contrapartida, também podemos usá-la para enganar, entristecer, iludir, mentir e também muito mais. Tudo depende da boa vontade. A boa vontade é tudo de bom, diria Kant. Ela, inclusive, levaria os seres humanos a uma maior igualdade. Então, entendemos que os talentos naturais, por eles mesmos, não têm nenhuma relevância moral. Podemos ser gênios canalhas. Lindos heróis ou vilões. O que importa mesmo é a liberdade para decidir bem.

A boa vontade desinteressada e universal
Somos, portanto, igualmente livres para uma boa vontade, indo além dos nossos instintos naturais. Assim sendo, a primeira consequência da nossa liberdade é a boa vontade. No entanto, essa boa vontade deve ter como consequência o desinteresse. Com isso, a nossa liberdade tem como consequência primeira, a boa vontade, mas que deve ser praticada e motivada por uma segunda consequência, que é o desinteresse, ou seja, se faço algo para alguém, o faço porque quis e achei que devia, sem esperar nada em troca.
Ir além da nossa natureza e considerar outros desejos além dos próprios. Supõe não sermos egoístas. Sabemos diferenciar uma ação desinteressada de outra oposta. Qual tem mais valor moral? A desinteressada, supomos. Por isso, achamos tão interessante quando alguém nos faz um favor aparentemente motivado pelo nada, sem esperar nada em troca. Somos kantianos sem saber.
A terceira consequência desta liberdade é o universalismo.  A vontade deve ser uma boa vontade, desinteressada e ser universal (servir para todos). A ação pelo dever, que resulta da razão, deve valer para qualquer um. Portanto, o certo e o errado vão muito além do que é certo ou errado para cada um. Kant diria:
"Faça de tal maneira que sua ação pode ser feita por todas as pessoas. Aja de modo que sua ação possa ser transformada em lei".
Por exemplo: não tomo o que não me pertence. Eu devo agir assim e todas as pessoas do mundo não devem roubar. Perceba a relação entre esse universalismo e o desinteresse.


O Imperativo Categórico
Kant criou uma fórmula chamada de Imperativo Categórico, uma fórmula que ordena (por isso é imperativo) de modo incondicional (por isso é categórico).
Aja unicamente de tal forma que sua ação possa ser transformada em lei universal”
                O que eu devo fazer ou não devo fazer pode ser feito ou não por todas as pessoas.
Por exemplo: eu posso decidir, por vontade própria, não roubar um bem alheio, porque sou capaz de refletir e julgar que não é correto tomar de outro aquilo que não me pertence, e este é um valor universal, que deve ser seguido não apenas por mim, mas por todos os outros.
Outro exemplo: se eu tomar emprestado dinheiro de alguém, devo devolver no prazo combinado, e essa regra vale para mim e para todos os outros. Não posso, pelo contrário, tomar emprestado e só devolver quando eu quiser, desrespeitando a data acordada para a devolução, e exigir que quando eu emprestar dinheiro a alguém, ele devolva-o no prazo combinado. Se agisse assim, estaria produzindo duas regras: uma mais frouxa que vale para mim e outra mais rigorosa que se aplica aos outros. Essa ação estaria, portanto, contrária à fórmula do imperativo categórico kantiano.

Agir com ética exige esforço
A ideia de universalidade implica a negação da própria particularidade. É resistir aos próprios interesses egoístas. Para levar em conta o interesse geral, o bem comum, é preciso considerar o interesse dos outros. E isso não é natural.
Exige esforço. Para ser livre, ter boa vontade, considerar o outro e buscar o universal é preciso ficar sempre atento ao dever, remando, muitas vezes, contra a maré.
Para o pensamento moderno de Kant, a virtude é uma luta contra a natureza em nós. Uma disposição que se aprende. Por não ser inata (que vem naturalmente), exige educação, porque a matéria bruta, a natureza, é egoísta.
De tudo isso, consideramos por fim que não se trata de agir meramente segundo os costumes ou a tradição de uma cultura. Trata-se de agir segundo um princípio que me é dado pela minha própria razão, determinando minha vontade, como um ato de liberdade. Sendo a razão a mesma em todos os sujeitos, a lei pensada pela razão também será a mesma, ainda que os sujeitos sejam diferentes.
Fica a questão: agimos como devemos agir, baseando-nos em regras universais que nos são dadas pelo exercício do pensamento racional?


Vamos refletir:

1.   Encontramos na moral cristã a regra: “Não roubarás”. Sendo cristão, devo viver de acordo com essa regra. Caso contrário, poderei ser punido. Ao fazer isso estou agindo de forma autônoma ou heterônoma? Explique.
2.   Considerando a mesma situação acima (não roubar), como ela poderia ser analisada de acordo com o imperativo categórico kantiano?
3.  Explique as condições para que uma ação seja ética, conforme Kant. (liberdade, boa vontade, desinteresse, universalidade)
4.   Por que, segundo Kant, o imperativo categórico é importante para a construção da sociedade humana?

Referências Bibliográficas:
FILHO, Clóvis de Barros; POMPEU, Júlio. A Filosofia Explica as Grandes Questões da Humanidade. Editora Leya. Rio de Janeiro. 2013.
GALO, Sílvio. Ética e Cidadania: Caminhos da Filosofia. 18ªed. Campinas, SP: Papirus. 2010.
___________ Filosofia: experiência do pensamento. Volume único. 2ed. Scipione. São Paulo. 2016.