domingo, 10 de maio de 2020


Liberdade em Jean Paul Sartre.


O que é liberdade?
Segundo o Dicionário de Filosofia, em sentido geral, o termo liberdade é a condição daquele que é livre; capacidade de agir por si próprio; autodeterminação; independência; autonomia.
A história desse conceito perpassa os estudos de épocas e pensadores diversos e registra a interpretação de doutrinas sociais bastante variadas. Podemos fazer uma distinção inicial entre o que se convencionou chamar de concepção “negativa” e “positiva” da liberdade.
 Em seu sentido negativo, liberdade significa a ausência de restrições ou de interferência. O sentido positivo de liberdade significa a posse de direitos, implicando o estabelecimento de um amplo âmbito de direitos civis, políticos e sociais. O crescimento da liberdade é concebido como uma conquista da cidadania.
No sentido político, a liberdade civil ou individual é o exercício de sua cidadania dentro dos limites da lei e respeitando os direitos dos outros. "A liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro" (Spencer).
Em um sentido ético, trata-se do direito de escolha pelo indivíduo de seu modo de agir, independentemente de qualquer determinação externa. "A liberdade consiste unicamente em que, ao afirmar ou negar, realizar ou enviar o que o entendimento nos prescreve, agimos de modo a sentir que, em nenhum momento, qualquer força exterior nos constrange" (Descartes).
A liberdade de pensamento, em seu sentido estrito, é inalienável, inquestionável. Reivindicar a liberdade de pensar significa lutar pela liberdade de exprimir o pensamento. Voltaire ilustra bem essa liberdade: "Não estou de acordo com o que você diz, mas lutarei até o fim para que você tenha o direito de dizê-lo."
T. Hobbes afirma que o “homem livre é aquele que não é impedido de fazer o que tem vontade, no que se refere às coisas e que pode fazer por sua força e capacidade”.
Kant diz que ser livre é ser autônomo, isto, é dar a si mesmo as regras a serem seguidas racionalmente. Para Jean-Paul Sartre, a liberdade é a condição ontológica do ser humano. O homem é, antes de tudo, livre. O homem é nada antes de definir-se como algo, e é absolutamente livre para definir-se, engajar-se, encerrar-se, esgotar a si mesmo.
No livro “A sociedade do espetáculo” (1997), Guy Debord, ao criticar a sociedade de consumo e o mercado, afirma que a liberdade de escolha é uma liberdade ilusória, pois escolher é sempre optar entre duas ou mais coisas prontas, isto é, pré-determinadas por outros. Uma sociedade como a capitalista, onde a única liberdade que existe socialmente é a liberdade de escolher qual mercadoria consumir, impede que os indivíduos sejam livres na sua vida cotidiana. A vida cotidiana na sociedade capitalista, segundo Debord, se divide em tempo de trabalho e tempo de lazer. Assim, a sociedade da mercadoria faz da passividade (escolher, consumir) a liberdade ilusória que se deve buscar a todo o custo, enquanto que, de fato, como seres ativos, práticos (no trabalho, na produção), somos não livres.
De maneira geral, a liberdade de indivíduos ou grupos sempre sugere, ou tem a possibilidade de implicar, a limitação da liberdade de outros.


O Existencialismo
“O importante não é o que fazem do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele”.
      O filósofo que mais se preocupou em discutir temas relacionados com a liberdade, para o exercício da ética, foi o francês Jean-Paul Sartre (1905 - 1980).
Jean-Paul Sartre tornou-se o filósofo mais conhecido da corrente filosófica existencialista. A filosofia existencialista concentra-se sobre o nosso estar no mundo e sua principal preocupação diz respeito às condições que criamos para nossa existência e não às condições criadas pela Natureza. Conforme Sartre, nós existimos no mundo e depois definimos o que queremos ser. “O homem tem a liberdade de fazer-se”. Isto é, podemos construir a nossa existência conforme as escolhas que fazemos.

A Liberdade
Sartre deu atenção especial ao tema da liberdade e da angústia que se sente pela insegurança, ao ver-se, constantemente diante de situações que exigem que façamos escolhas.  E essas escolhas precisam ser éticas, pois vivemos com outras pessoas.
Sartre defendeu que a angústia surge no exato momento em que o homem percebe a sua condenação irrevogável (que não se pode negar) à liberdade, isto é, o homem está condenado a ser livre, já que sempre haverá uma opção de escolha. Ser humano não pode viver sem fazer escolhas, essa é sua "condenação".
Mesmo diante de A, pode optar por escolher não-A. Quer dizer, mesmo diante de uma coisa (A), pode escolher o contrário (não-A). Ao perceber tal condenação, ele se sente angustiado em saber que decide sobre o seu destino. O próprio destino depende das escolhas que cada um faz para sua vida.

A existência precede a essência
O argumento de que a essência precede (vem antes) a existência implica a necessidade de um criador; assim, quando um objeto vai ser produzido (um martelo, uma caneta, uma máquina), ele obedece a um plano pré-concebido, que estabelece sua forma, suas principais características e sua função, ou seja, ele possui um propósito definido, uma essência que define sua forma e utilidade, e precede a sua existência.
Sendo Sartre um representante do existencialismo ateu (que não considera a existência de um deus), ele defende que há um ser onde essa situação se inverte, e a existência precede a essência: o ser humano. Assim, seria o próprio homem o definidor de sua essência, e não Deus, como falava o existencialismo cristão. Isso significa que, para ele, o ser humano é um nada quando nasce, isto é, quando passa a existir. Só depois, à medida que vai existindo e se definindo é que passa a ser (ser algo). No início há apenas esse nada, que confere ao ser humano a liberdade de escolha e a grande responsabilidade de construir a si mesmo dentro das condições encontradas desde seu nascimento. 
        Em sua conferência "O existencialismo é um humanismo", Sartre afirma que o ser humano é o único nesta condição; nós existimos antes que nossa essência seja definida. Esse seria um dos preceitos básicos do Existencialismo. Assim, o autor nega a existência de uma suposta "essência humana" (pré-concebida), seja ela boa ou ruim. As nossas escolhas cabem somente a nós mesmos, não havendo, assim, fator externo que justifique nossas ações. O responsável final pelas ações do homem é o próprio homem.

Liberdade e Responsabilidade
      Nesse sentido, o existencialismo sartriano concede importante destaque à responsabilidade: cada escolha carrega consigo a obrigação de responder pelos próprios atos, um encargo que tor na o homem o único responsável pelas consequências de suas decisões. E cada uma dessas escolhas provoca mudanças que não podem ser desfeitas, de forma a modelar o mundo de acordo com seu projeto pessoal. Daí a importância de usar bem a liberdade para agir de maneira ética nas relações sociais.
        Assim, perante suas escolhas, o homem não apenas torna-se responsável por si, mas também por toda a humanidade. Essa responsabilidade é a causa da angústia dos existencialistas. Essa angústia decorre da consciência do homem de que são as suas escolhas que definirão a sua essência, e mais, de que essas escolhas podem afetar, de forma irreversível, o próprio mundo. 
A angústia, portanto, vem da própria consciência da liberdade e da responsabilidade em usá-la de forma adequada (Ética).

Um dos temas filosóficos que mais pode despertar o interesse e a curiosidade é o da intersubjetividade, isto é, as relações entre os indivíduos. A partir da perspectiva do filósofo francês Jean-Paul Sartre, pode-se refletir sobre esse assunto tão complexo, e que nos afeta cotidianamente.
 Há uma frase bastante famosa de Sartre, presente em uma das peças de teatro que ele escreveu, chamada Entre quatro paredes (Huis clos no original francês), que pode resumir o ponto de vista do autor sobre a intersubjetividade: “o inferno, são os outros”. À primeira vista, essa frase pode ser lida como um atestado de pessimismo quanto ao sucesso das relações humanas – mas, não é bem assim.
Em sua principal obra, O ser e o nada, Sartre aponta que a característica essencial do homem é sua liberdade radical (isto é, o homem é ontologicamente livre, é livre em seu ser). Há um famoso jargão existencialista (movimento filosófico que tinha em Sartre um de seus mais importantes filósofos), que diz que, no homem, “a existência precede a essência”. Bem resumidamente falando, isso significa que, para um existencialista, o homem primeiro nasce, passa a existir no mundo, e só depois, no decorrer de sua vida, ele constrói algo que possa ser chamado de sua “essência” – aquilo pelo qual identificamos cada pessoa em particular. Essa “essência” se forma, basicamente, pelas escolhas que cada um de nós faz ao longo de nossas vidas (valores, profissão, a forma de se relacionar com os outros, opiniões, gostos, crenças, etc.).
Ainda na peça Entre quatro paredes, Sartre afirma que, afinal, um homem “nada mais é do que a soma das escolhas que fez durante sua vida”. É nesse movimento que nossa existência pode ganhar um sentido que, a priori (antes) ela não tem.
Se o homem é fundamentalmente livre, mesmo alguém mantido sob a mais cruel dominação, no fundo permanece livre em seu ser, em sua consciência. Quer dizer, um homem jamais conseguirá dominar plenamente o outro, penetrar plenamente em sua consciência: sempre haverá lá uma resistência, um resquício de liberdade. Em outros termos, um homem nunca pode ser reduzido completamente à condição de um objeto; a isso sempre haverá uma espécie de oposição por parte de nossa consciência, vinda de nossa liberdade radical.
Nesse sentido, as relações humanas são, a princípio, conflituosas: quando encontro o outro, há um confronto entre minha liberdade e a dele. Porém, e isso é importante, esse conflito não é tudo. Eu preciso do outro, por exemplo, para me conhecer plenamente, para escapar ao que Sartre chama de má-fé, essa espécie de mentira que contamos a nós mesmos para fugir da angústia, que se origina da responsabilidade que temos por nossas escolhas (por exemplo: fui mal numa prova hoje. Ontem, porém, ao invés de estudar, resolvi ficar vendo TV. Para Sartre, é preciso que ajamos autenticamente diante dessa situação, é preciso que eu assuma a responsabilidade de que fui mal porque não quis estudar, porque preferi ficar vendo TV. No entanto, frequentemente agimos de “má-fé”, e tentamos nos enganar, por exemplo, dizendo que fomos mal na prova porque ela estava muito difícil, ou porque o professor é ruim, etc., eliminando o peso da responsabilidade por nossas escolhas). O olhar alheio (do outro) é responsável por nos ajudar a escapar da tentação da má-fé, ele é responsável por nos dizer quem somos, e não quem pensamos ser – o que é fundamental se quisermos melhorar, crescer, evoluir em todos os aspectos. Isso para não falar do necessário processo de socialização, sem o qual não conseguiríamos sobreviver.
Assim, na perspectiva sartriana, não há relação humana que não carregue em si mesma um germe de tensão. “O inferno são os outros”, para Sartre, significa justamente isso: porque o outro também é livre, não podemos controlar completamente o que ele pensa, o que ele nos diz, o limite que ele impõe à nossa liberdade (o que frequentemente gera conflito); mas, ao mesmo tempo (daí vem a tensão), preciso dele, de seu olhar (ainda que, muitas vezes, esse olhar veja algo em nós que não gostamos), para me conhecer e poder agir no mundo, pois apenas por nossas ações (sobretudo as que interferem positivamente na vida dos outros), e no nosso contato intersubjetivo autêntico (que ocorre quando encaro o outro como um ser igualmente livre, e não como um simples objeto), que podemos superar nossa situação e dar um sentido legítimo à nossa existência.
A perspectiva filosófica de Sartre sobre as relações com os outros traz alguns elementos importantes para pensarmos. No fundo, o que a teoria sartriana coloca é que, se o homem é livre, toda relação humana baseia-se numa escolha de cunho moral, quer dizer, na forma como escolhemos ver e nos relacionar com o outro. Ao fim e ao cabo, segundo Sartre, a última palavra compete a cada indivíduo. Mas, com base no que foi exposto, você poderia questionar: numa sociedade altamente individualista como a nossa, na qual a maioria das pessoas é vista como uma simples mercadoria, ou como número para estatísticas, como relacionar nossa liberdade com o respeito e a afirmação da liberdade do outro? Parece que um dos desafios contemporâneos é justamente tentar desatar esse nó.

Reflita e Responda:
1.       Explique a afirmação: “O importante não é o que fazem do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele”. O que na frase se refere ao determinismo e o que se refere à liberdade?
2.       O que significa dizer “O homem tem a liberdade de fazer-se”?
3.       No caso do ser humano, “a existência precede a essência”. Conforme o texto, o que isso quer dizer?
4.       Explique a relação entre “angústia” e a “condenação à liberdade” pensada por Sartre.
5.        Como entender a ideia de Sartre de que “o inferno são os outros”, mas que ao mesmo tempo, precisamos do outro. Explique.

Para quem se interessar:
SARTRE, Jean-Paul. Entre quatro paredes, ed. Civilização Brasileira.
_________________. O ser e o nada, ed. Vozes (Terceira Parte, sobretudo); 

Referência Bibliográfica:
COTRIM, Gilberto; FERNANDES, Mirna. Fundamentos de Filosofia. 4ªed. São Paulo: Saraiva, 2016.
FILHO, Clóvis de Barros; POMPEU, Júlio. A Filosofia Explica as Grandes Questões da Humanidade. Editora Leya. Rio de Janeiro. 2013.
GALO, Sílvio. Ética e Cidadania: Caminhos da Filosofia. 18ªed. Campinas, SP: Papirus, 2010.
Imagem borboletas: https://amigosdepelotas.com.br/2019/12/09/a-atracao-pela-liberdade/ acessado em 10/05/2020 às 20h06
Imagem responsabilidade: https://flammo.com.br/aprendizados/assumindo-a-responsabilidade/ acessado em 10/05/2020 às 20h11
Imagem Sartre: https://br.pinterest.com/pin/415808978095727006/ acessado em 10/05/2020 às 20h03min



Todos os homens são “filósofos”

Introdução
O objetivo desta leitura é que compreendam, na perspectiva do filósofo italiano Antônio Gramsci, (1891-1937), em que sentido se pode afirmar que todos os homens são “filósofos”. Trata-se de mostrar que, de certo modo, a Filosofia está presente em nosso cotidiano (na linguagem, no senso comum, no bom senso, na religião, enfim, em todo o nosso sistema de crenças e opiniões), influenciando nosso modo de agir e pensar, mesmo que não tenhamos consciência disso. Com esse texto, você pode, também, explorar os conceitos de “senso comum” e “bom senso”, cuja compreensão será importante para a percepção do papel da Filosofia como meio de superação do senso comum.

Todos os homens são “filósofos”
Antonio Gramsci, um filósofo italiano do século passado, já alertava para a necessidade de se combater o preconceito muito difundido de que a Filosofia é uma atividade intelectual muito difícil e, por isso, restrita a uma minoria de inteligência supostamente privilegiada. Isso porque, para ele, em um certo sentido, “todos os homens são ‘filósofos’”, pois, de algum modo, todas as pessoas, sem distinção, independentemente de seu grau de escolaridade, lidam, convivem, trabalham com a Filosofia e a utilizam no seu dia a dia, mesmo que não se apercebam disso. Afinal, a Filosofia está presente “na linguagem, no senso comum, no bom senso, na religião”, enfim, “em todo sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ser e agir” que caracteriza o que somos.

A linguagem
A Filosofia está presente na linguagem porque esta não é pura e simplesmente um amontoado de “palavras gramaticalmente vazias de conteúdo”. Ao contrário, ela é um “conjunto de noções e conceitos determinados”, muitos dos quais derivados da Filosofia. Portanto, a Filosofia está presente na linguagem que utilizamos, mesmo que não tenhamos consciência disso. Daí por que, para Gramsci: “Linguagem significa também cultura e Filosofia.

O senso comum
O senso comum é o conjunto de valores, crenças, opiniões, preferências, que constitui a nossa visão de mundo e que orienta nossas ações e escolhas cotidianas. Em geral é assimilado acriticamente, sem qualquer questionamento. A exemplo do que acontece com a linguagem, muitos desses valores e crenças têm origem na Filosofia, mas nós os assimilamos espontaneamente, sem nos darmos conta de sua origem. Simplesmente pensamos e vivemos de uma determinada maneira, acreditamos em certo grupo de valores, defendemos alguma posição política, ideológica ou religiosa, e assim por diante, sem, no entanto, nos preocuparmos em fundamentar nossas opiniões. Ao contrário, contentamo-nos com argumentos superficiais, muitas vezes até inconsistentes ou contraditórios.

O bom senso
O “bom senso”, por sua vez, “coincide com a Filosofia”. Enquanto o senso comum é acrítico, espontâneo, irrefletido, o bom senso implica refletir, tomar consciência de que os acontecimentos possuem uma dimensão racional e que, portanto, devem ser compreendidos e enfrentados também de forma racional, a fim de se obter uma orientação consciente para a ação, evitando se deixar levar por “impulsos instintivos e violentos”. Esse “bom senso” é o que Gramsci chamou de “núcleo sadio do senso comum”. Ou seja, mesmo no nível do senso comum é possível refletir, pensar de maneira crítica sobre a realidade, tomar consciência dela e agir de modo coerente com essa consciência. E isso, de certo modo, já é “filosofar”, pelo menos um filosofar ao nível do senso comum. De fato, não é raro vermos pessoas simples, às vezes com pouca ou nenhuma escolaridade, que revelam um entendimento aguçado e bem elaborado da realidade em que vivem.

A religião
Finalmente, a Filosofia está presente na religião porque também na experiência religiosa nos deparamos com questões e conceitos (Deus, alma, morte etc.) que foram e continuam sendo objeto da reflexão e da elaboração dos filósofos.
Portanto, se a Filosofia está contida na linguagem, no senso comum, no bom senso e na religião, podemos dizer então que ela está presente em todas as dimensões da vida humana, sendo, portanto, familiar a todas as pessoas. Afinal, toda atividade humana, mesmo aquelas que são predominantemente práticas (as diversas formas de trabalho manual, por exemplo), é sempre acompanhada de um pensar, de um saber, em suma, de um trabalho intelectual, racional, reflexivo. É nesse sentido que podemos afirmar que “todos os homens são ‘filósofos’”.

Filósofos e “filósofos”
Se “todos os homens são ‘filósofos’”, como quer Gramsci, qual é, então, a diferença entre o filosofar de uma pessoa comum e o de um filósofo profissional ou especialista? O próprio autor esclarece: “O filósofo profissional ou técnico não só ‘pensa’ com maior rigor lógico, com maior coerência, com maior espírito de sistema do que os outros homens, mas conhece toda a história do pensamento, isto é, sabe as razões do desenvolvimento que o pensamento sofreu até ele e está em condições de retomar os problemas a partir do ponto em que eles se encontram após terem sofrido a mais alta tentativa de solução etc. Ele tem, no campo do pensamento, a mesma função que nos diversos campos científicos têm os especialistas”. Em outras palavras, podemos dizer que o filósofo especialista: pensa, reflete, raciocina observando mais cuidadosamente as regras da lógica e os procedimentos metodológicos que utiliza; conhece a história do pensamento, isto é, a história da Filosofia; é capaz de analisar os problemas de seu tempo à luz da contribuição dos filósofos do passado que já se debruçaram sobre eles.
Mas se existe essa diferença entre o filósofo especialista e o não especialista, por que então afirmar que “todos os homens são ‘filósofos’”? Justamente para combater e destruir aquele preconceito de que a Filosofia é uma atividade muito difícil e restrita a uma minoria. É importante perceber que a propagação desse preconceito cumpre uma função política conservadora, na medida em que afasta a Filosofia do contato com as massas, com o povo, com as pessoas mais simples. Dessa forma, impedidas de se apropriar dos conceitos e das teorias elaboradas pelos filósofos, as pessoas ficam desprovidas dessas ferramentas intelectuais que lhes permitiriam superar mais facilmente o senso comum e adquirir um conhecimento mais crítico e elaborado da realidade em que vivem.
Além disso, cabe afirmar que todos os homens são “filósofos” para deixar claro que todas as pessoas são potencialmente capazes de avançar de um “filosofar” espontâneo, assistemático, restrito ao bom senso, para um filosofar mais elaborado e rigoroso, semelhante ao praticado pelos filósofos especialistas.

Atividade para reflexão:

 1-Qual é solução encontrada pelo pensador Antonio Gramsci, para superar a visão  preconceituosa existente sobre a filosofia e o ato de filosofar?
    2- Por que  Gramsci afirma que: “todos os homens são “filósofos”?
    3- Diferencie o filósofo especialista do filósofo não especialista.
    4- Diferencie Senso comum de bom senso.
    5- Em quais áreas podemos encontrar a presença da filosofia em nosso cotidiano. Justifique sua resposta.

Referências bibliográficas:
GRAMSCI, A. Caderno 11 (1932-1933). Introdução ao estudo da Filosofia. In: Cadernos do cárcere. Vol.1. Edição Carlos Nelson Coutinho com Marco Aurélio Nogueira e Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. p. 410.
MATERIAL DE APOIO AO CURRÍCULO DO ESTADO DE SÃO PAULO CADERNO DO PROFESSOR FILOSOFIA ENSINO MÉDIO 3ª SÉRIE VOLUME 1. Texto Elaborado especialmente para o São Paulo faz escola.


quarta-feira, 6 de maio de 2020


SÓCRATES

Contexto histórico:
Sócrates (470 a 399 a.C) nasceu numa época em que Atenas se tornava uma potência política, econômica e militar, a cidade Estado hegemônica da Grécia. Nasceu no chamado “século de Péricles”, que passou a governar Atenas quando Sócrates tinha vinte anos de idade. O século que viu nascer foi o chamado “século de ouro”, “época das luzes”, o “milagre grego”, sem similar na história do mundo ocidental. A democracia já era uma realidade desde que Clístenes introduzira suas reformas. Atenas era uma cidade florescente.
Mesmo tendo sido muitas vezes incluído entre os sofistas, Sócrates recusava tal classificação e opunha-se a eles de forma crítica. Opunha-se, igualmente, aos poderosos de seu tempo, sendo acusado de não crer nos deuses da cidade e corromper a juventude. Por isso, foi condenado e morto.
O pensamento de Sócrates que predominantemente chegou até nos foi transmitido por Platão.

Quem foi Sócrates:
            Sócrates foi filho de Sofronisco, um escultor e Fenareta, uma parteira. Nasceu em Atenas, onde passou toda sua vida. Certo dia, um amigo seu, Querofonte testemunhou a afirmação, proveniente (que veio de alguém ou algum lugar) do oráculo de Delfos, de que Sócrates era “o mais sábio dos homens”. Inicialmente intrigado, Sócrates procura o sentido de tal afirmação. Sendo um homem sem nenhum conhecimento especializado, deduz que sua sabedoria só poderia ser resultado da percepção que tinha da própria ignorância e, seguindo a indicação do deus Apolo, passa a questionar todo aquele que se considerasse dotado de sabedoria.

A verdade e a felicidade em Sócrates:
            Para Sócrates a procura pela verdade implicava em conseguir uma convivência honesta e digna entre os homens. Para ele conhecer a verdade teria como consequência inevitável agir bem, quanto aos maus atos, só seriam cometidos por ignorância. O bem e a verdade estariam intimamente ligados, seriam inseparáveis, conhecer seria igual a conhecer o bem. Agir conforme o bem seria decorrência do conhecimento. Pelo mesmo raciocínio, uma ação danosa a si ou a outros seria decorrência do desconhecimento.
            De acordo com o pensamento de Sócrates, a finalidade da vida é a felicidade, que estaria na capacidade do ser humano em estabelecer para si mesmo, por meio do saber, suas próprias leis e regras de condutas (de como agir).

O método socrático, dialético ou maiêutico:
            A filosofia de Sócrates era desenvolvida mediante o diálogo crítico ou dialética, com seus interlocutores, o qual poderia ser dividido em:
- Refutação ou ironia: Etapa em que o filósofo interrogava seus interlocutores sobre aquilo que pensavam saber, formulando -lhes perguntas e procurando evidenciar suas contradições. Seus objetivos era fazê-los tomar consciência profunda de suas próprias re spostas, das consequências que poderiam ser tiradas de suas reflexões, muitas vezes repletas de conceitos vagos e imprecisos.
- Maiêutica:  Etapa em que ele propunha aos discípulos uma nova série de questões, com o objetivo de ajudá-los a conceber ou reconstruir suas próprias ideias. Por isso, essa fase é chamada de maiêutica, termo que em grego significa: “arte de trazes a luz”.
            Sócrates transmitia seu ensinamento a qualquer homem, tivesse ele um interesse especial pelo debate filosófico ou não. Ele aplicava o método “parto das ideias” num sentido amplo, que não se restringia a sua doutrina especifica.
            A popularidade de Sócrates em Atenas era decorrente de sua atitude em relação à filosofia: Sócrates percorria a cidade com frequência dialogando com os jovens e adultos nos espaços públicos. Essa atividade, aliás, era condizente com a cultura ateniense da época, afinal a democracia se fundamentava justamente nos debates públicos.

A morte de Sócrates:
            A popularidade de Sócrates o levou a uma consequência funesta (danosa, mortal). Alguns cidadãos de Atenas, enfurecidos pela ironia que Sócrates não tinha medo de usar, acusaram-no oficialmente de impiedoso (por desrespeitar os deuses, a religião) e de induzir os jovens a se comportar de maneira imprópria. Como resultado em 399 a.C. Sócrates foi levado a julgamento. Diante dos juízes, rebateu os argumentos de seus acusadores e, apesar de se declarar inocente, foi condenado à morte por envenenamento. Foi então, concedida a chance de escapar da pena se renegasse suas ideias diante do tribunal, ao mesmo tempo em que alguns amigos arquitetaram um plano para que ele fugisse de Atenas. Entretanto, Sócrates não aceitou nenhuma das alternativas, ambas desonrosas do seu ponto de vista e foi morto por meio da ingestão de cicuta, um veneno letal extraído de uma planta de mesmo nome.

Questões para reflexão:

1-) Explique com suas palavras o que é a Ironia e Maiêutica, procedimentos utilizados por Sócrates para chegar ao conhecimento verdadeiro.

2-) Por que, para Sócrates, agir bem ou fazer o bem, estava ligado ao conhecimento?

3-) “Só sei que nada sei”, frase atribuída a Sócrates, é aparentemente contraditória. Qual a importância desse princípio nas ideias defendidas pelo filósofo?

4-) O que Sócrates fez para ser considerado um elemento perturbador da democracia ateniense?

5-) Por que é possível dizer que a condenação de Sócrates teve um motivo político?

Referência
CHALITA, Gabriel. Vivendo a Filosofia. São Paulo: Atual, 2002. (p.46-49)
COTRIM, Gilberto; FERNANDES, Mirna. Fundamentos de Filosofia. 4ªed. São Paulo: Saraiva, 2016. (p.222)
MEIER. Celito. Filosofia: por uma experiência da complexidade. Volume único. 2ª Ed. Belo Horizonte: MG; Pax Editora e Distribuidora, 2014 (p.101)


domingo, 3 de maio de 2020


Os sofistas.

Contexto histórico:
No século V a.C., Atenas vivia o auge de um regime de governo no qual os homens livres decidiam os interesses comuns a todos os cidadãos. Em outras palavras, eles determinavam em discussões públicas como a cidade deveria ser administrada. Era considerado cidadão os homens livres com alguma propriedade e que não fosse estrangeiro. Esse regime de governo era a democracia ateniense que, embora não garantisse os mesmos direitos para todas as pessoas, representou uma importante mudança no modo de ver o mundo, pois tinha como fundamento a ideia de que o homem tem a soberania sobre o seu destino.
As propostas que os cidadãos atenienses defendiam publicamente eram feitas por meio de discursos proferidos na ágora (praça pública). Para obter a aprovação da maioria, esses argumentos deveriam conter argumentos sólidos e persuasivos, capazes de convencer os demais. Falar bem e de modo convincente era considerado, portanto, um dom muito valioso.
Por isso, havia cidadãos que procuravam aperfeiçoar sua habilidade de discursar, a fim de melhor convencer os outros. A necessidade de se expressar bem, juntamente com a importância que foi dada ao indivíduo, naquele período concebido como o senhor do seu destino, favoreceu o surgimento de um grupo de filósofos, chamados sofistas (palavra de origem grega que quer dizer “grande mestre ou sábio”, algo como “superssábios”), que dominavam a arte da oratória, isto é, o uso habilidoso da palavra.

Quem eram os sofistas:
Os sofistas eram filósofos originários de diferentes cidades e viajavam pelas pólis (cidades-Estado) go vernadas da mesma forma democrática, especialmente Atenas, onde discursavam em público e ensinavam sua arte em troca de pagamento.
Os sofistas, entretanto, não foram somente professores, mas também estabeleceram uma corrente de pensamento própria. Sua preocupação filosófica se voltava para o homem e a vida em sociedade; as questões que ocupavam os pré-socráticos, dirigidas para a natureza e a essência do universo, foram colocadas em segundo plano.
Alguns pensadores sofistas foram Górgias de Leontini (483-373 a.C.), Hípias (século V a.C.) e Protágoras de Abdera (485-410 a.C.), a quem se atribuiu uma famosa frase: “O homem é a medida de todas as coisas”. Para os sofistas, tudo deveria ser avaliado segundo os interesses do homem e de acordo com a forma como vê a realidade social.
Essas características dos ensinamentos dos sofistas favoreceram o surgimento de concepções filosóficas relativistas sobre as coisas. Para o relativismo não há uma verdade única, absoluta. Assim, a “verdade”, seria algo relativo ao indivíduo, ao momento histórico, às circunstancias, podendo mudar frequentemente, conforme o interesse.

Sofistas: heróis ou vilões?
É importante compreender que o termo sofista teve originalmente um significado positivo. Entretanto, com o decorrer do tempo, ganhou o sentido de “enganador” ou “impostor”. Desde então, considerou-se a sofística uma arte de manipular raciocínios, produzir o falso, iludir os ouvintes, sem nenhum amor pela verdade. Os sofistas pareciam não buscar a Aletheia (a verdade); contentavam-se com pseudos (o falso).
Por isso hoje se utiliza a palavra sofisma para designar um raciocínio aparentemente correto, mas que na realidade é falso, geralmente formulado com o objetivo de enganar alguém.
Em resumo, a sofística destruía os fundamentos de todo o conhecimento, já que tudo seria relativo e os valores seriam subjetivos (pessoais) assim como impediam o estabelecimento de um conjunto de normas de comportamento que garantisse os mesmos direitos para todos os cidadãos da pólis. Foi nesse contexto que surgiu um pensador cuja doutrina se opunha profundamente à sofística: Sócrates.

Para entender melhor:

PARA REFLETIR E RESPONDER...
1.     Caracterize os sofistas e o que favoreceu seu surgimento.
2.     Em contraste com o período pré-socrático, marcado por reflexões cosmológicas, qual foi a grande preocupação do período clássico que se inicia com os sofistas?
3.     Se todos os cidadãos buscassem somente os seus interesses individuais, conforme recomendava a sofística, o que aconteceria na pólis em termos de sua organização?
4.     O que significaria a vida pública para um homem que estivesse apenas interessado em seu próprio proveito?
5.     Ao longo da história os sofistas foram considerados heróis ou vilões? Justifique.
6.     Quem, hoje, poderia ser chamado de sofista? Dê sua opinião e cite exemplos.

Referência:

CHALITA, Gabriel. Vivendo a Filosofia. São Paulo: Atual, 2002.
COTRIM, Gilberto; FERNANDES, Mirna. Fundamentos de Filosofia. 4ªed. São Paulo: Saraiva, 2016.
Imagem 2 Protágoras: https://www.todamateria.com.br/protagoras/ acessado em 28/04/2020 às 19h55




Conhecendo Epicuro
Epicuro de Samos (341-270 a.C.) foi um cidadão de família nobre de Atenas, fundando em 306 a.C. uma escola no jardim de uma grande casa. Segundo o epicurismo, a filosofia deve servir para libertar o homem do medo do destino, da morte, das divindades.
Epicuro é representante de uma teoria filosófica chamada Hedonismo. A ética (modo de agir) que os epicuristas defendiam é que o supremo bem a ser buscado na vida é o prazer (em grego, hedon). Sobre a morte, ele enunciou um princípio ético: não há que temer a morte, pois com a morte nada sentimos e depois dela não mais existimos. Trata-se, então, de viver plenamente a vida.

Habitua-te a pensar que a morte nada mais é para nós, visto que todo o mal e todo o bem se encontram na sensibilidade: e a morte é privação da sensibilidade. 

Entendendo melhor os Epicurismo:

O epicurismo afirmava que a finalidade da vida é o prazer. Não um prazer obtido simplesmente, por meio dos instintos ou das paixões; e sim pela razão: o verdadeiro prazer estaria em superar todos os desejos, não ter necessidade de nada.

Quando dizemos, então, que o prazer é o fim, não queremos referir-nos aos prazeres dos intemperantes (alguém que não se controla) ou aos produzidos pela sensualidade (pela sensação empírica, sensorial), como creem certos ignorantes, que se encontram em desacordo conosco ou não nos compreendem, mas ao prazer de nos acharmos livres de sofrimento do corpo e de perturbações da alma.
            A doutrina epicurista afirmava ainda que valores como:
·         a amizade,
·         o pensamento,
·         a apreciação das belezas naturais e das artes
são formas de obter essa satisfação.
A felicidade – a paz espiritual – (ataraxia, em grego) seria alcançada quando o homem atingisse o autodomínio (dominar a si próprio), isto é, se libertasse de todos os medos e desejos, agindo somente segundo sua vontade.
            É importante observar, contudo, que ao falar em prazer Epicuro não se referia ao prazer sensorial, mas ao prazer racional. Tratava-se do prazer do sábio exercício da quietude da mente e da paz de espírito, o controle sobre as emoções e o domínio de si mesmo. Esse é o verdadeiro prazer, fonte da saúde e da felicidade. Entre os prazeres intelectuais, Epicuro incluía a amizade. Assim, sua escola, O Jardim, era uma comunidade na qual os discípulos compartilhavam a vida com o mestre, vivendo longe das agitações da cidade.

Eliminar ou moderar os desejos:
Epicuro também dizia que quem espera muito sempre corre o risco de se decepcionar. Por isso, ele recomendava que as pessoas eliminassem todos os desejos desnecessários e se permitissem apenas os naturais e necessários, mesmo assim com moderação. Isso significa fazer uma distinção entre os desejos, que, para o filósofo, podiam ser classificados em três tipos:
·         Naturais e necessários: como os desejos de comer, beber e dormir;
·         Naturais e desnecessários: como os desejos de comer alimentos refinados, tomar bebidas especiais e caras e dormir em lençóis luxuosos;
·         Não naturais e desnecessários: como os desejos de riqueza, fama e poder.

Neste sentido Epicuro orienta:
·         Contentar-se com pouco: seria o segredo do prazer e da felicidade. 
·         Reduzir a expectativa: Ao reduzir a expectativa seriamos conduzido a não há decepção, e um grande prazer pode advir de um copo de água.
·         Gozar o prazer eventual de um banquete ou de um cargo elevado não é proibido, mas não deveria ser desejado sempre, pois, mais cedo ou mais tarde, viriam a insatisfação, o desprazer, a infelicidade.
·         Devemos escolher os prazeres com prudência racional: Alguns são mais duradouros e encantam o espírito, como a boa conversação, a contemplação das artes e a audição de música. Já outros, movidos pela explosão, são muito intensos e imediatos, mas perdem sua força com o passar do tempo. Esse discernimento nos possibilita realizar uma escolha prudente e racional dos prazeres, evitando aqueles que podem produzir infelicidade.

Resumindo:
O epicurismo constitui uma ética hedonista, colocando o “verdadeiro prazer”, o prazer do repouso do espírito, como o bem a ser almejado. Não se trata de uma busca desenfreada por bens materiais, mas do exercício paciente do pensamento como forma de produzir a tranquilidade da alma.
A felicidade consiste, para Epicuro, em não sofrer no corpo, evitando as dores que podem ser evitadas (em grego: aponia = ausência de dor), e não ter a alma perturbada (em grego ataraxia = imperturbabilidade da alma).


QUESTÕES PARA REFLETIR E CONSTRUIR O PENSAMENTO
1.      Explique o que significa a teoria hedonista.
2.      Por que, segundo o texto, não precisamos temer a morte? Você concorda com essa afirmação?
3.      Faça uma lista dos seus desejos. Depois procure classificá-los de acordo com a teoria de Epicuro.
4.      Você acredita que, se desenvolvesse o autocontrole e apenas desejasse o que é natural e necessário, sofreria menos ou seria mais feliz?
5.      Qual é o papel da prudência na busca da felicidade?

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

CHALITA, Gabriel. Vivendo a Filosofia. São Paulo: Atual. 2002.
COTRIM, Gilberto; FERNANDES, Mirna. Fundamentos de Filosofia. 4ªed. São Paulo: Saraiva, 2016.
EPICURO. Antologia de textos. 3ªed. São Paulo: Abril Cultural, 1985. (Os Pensadores)
GALO, Sílvio. Filosofia: experiência do pensamento. Volume único. 2ed. Scipione. São Paulo. 2016.
Imagem 1: http://www.percepolegatto.com.br/2014/10/12/epicuro/ acessado em 03/05/2020 às 18h32
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O homem não vive sem a Pólis
Aristóteles (384-322 a.C.) dedicou boa parte de sua obra ao estudo de como o ser humano pode ser feliz vivendo em sociedade. “O homem”, afirma Aristóteles em A Política, “é naturalmente um animal político”. Político deve ser entendido como “participante da polis”. Em outras palavras, para esse filósofo um indivíduo vivendo sozinho é inconcebível: um homem absolutamente solitário ou auto-suficiente deixaria de ser homem – seria um deus ou uma fera, nas palavras de Aristóteles – ou simplesmente não sobreviveria.
A obra “A Política” é considerada um dos primeiros tratados sistemáticos sobre a arte e a ciência de governar a polis e, portanto, da filosofia política. Foi devido a essa obra clássica que o termo política se firmou nas línguas ocidentais.

Política como continuação da ética
Aristóteles entendia a política como uma “continuação” da ética, só que aplicada à vida pública. Assim, depois de refletir, em Ética a Nicômaco, sobre o modo de vida que conduz à felicidade humana, o filósofo investigou em “A Política” as instituições públicas e as formas de governo capazes de propiciar uma maneira melhor de viver em sociedade. Aristóteles considerava essa investigação fundamental, pois, para ele, a cidade (a pólis) constitui uma criação natural e o ser humano também é, por natureza, um animal social e político.

O conceito grego de política como esfera de realização do bem comum tornou-se clássico e permanece até os nossos dias, mesmo que seja como um ideal a ser alcançado.
Aristóteles também entende que a cidade tem precedência (vem antes) sobre cada um dos indivíduos, pois, isoladamente, o indivíduo não é autossuficiente, e a falta de um indivíduo não destrói a cidade. Assim, afirmou: “o todo deve necessariamente ter precedência sobre as partes” (A Política, p.15).
É por isso que para o filósofo a política é uma continuidade da ética, ou melhor, a ética é entendida como uma parte da política. A ética dirige-se ao bem individual, enquanto a política volta-se para o bem comum, constituindo-se também em meio necessário ao bem-estar pessoal.

A Pólis deve promover o bem comum
A pólis era para Aristóteles a melhor organização social possível, desde que fosse regida por critérios justos, que visassem ao bem comum. Para entender como o filósofo julgava ser possível determinar esses critérios, ele classificava a ética e a política como ciências práticas, que tinham a finalidade de aperfeiçoar o ser humano. A aplicação dessas ciências leva o desenvolvimento do ser humano na direção de uma existência melhor. 
O filósofo definia a ética como a ciência que trata do caráter e da conduta dos indivíduos, e a política como os estudos que regem a existência dos homens vivendo numa comunidade, no caso a pólis. O homem feliz era aquele que praticava incessantemente a virtude, sempre aperfeiçoando o seu caráter. Esse seria o campo específico da ética. No entanto, a conduta justa do indivíduo só teria sentido dentro da vida em sociedade.
Por isso, a política seria tão importante: para que o indivíduo possa ser virtuoso (ético e, portanto, feliz), é necessário haver uma organização política favorável para que essa finalidade seja atingida. Qual é ela? Para Aristóteles, é a pólis governada democraticamente, na qual todos os cidadãos façam parte de uma grande assembléia que governa a cidade, determinando seus destinos e redigindo leis que garantam uma existência digna para seus habitantes. 
É interessante relatar, finalmente, que esse filósofo estimava que, por meio da política, todos os homens livres teriam iguais condições de distinguir o que é bom, através do diálogo com os outros e, assim, determinar as normas mais adequadas para a vida em sociedade.

REFLITA E RESPONDA:
1.  A base do pensamento político de Aristóteles é a afirmação de que o ser humano é por natureza um animal político. Como ele chegou a tal conclusão?
2.  Por que a política seria uma continuação da ética, segundo Aristóteles? Explique.
3.  Conforme o pensamento aristotélico, você considera ultrapassada a ideia de política como realização do bem comum ou esse propósito ideal ainda é válido hoje? Dê sua opinião.
4.  Aristóteles é um filósofo que valoriza a democracia. Que parte do texto pode ser usada para justificar essa ideia?
5.  Faça uma relação entre ética, política e felicidade, conforme a filosofia aristotélica.

Referências Bibliográficas:

ARISTÓTELES. A Política. Brasília: UnB, 1985.
CHALITA, Gabriel. Vivendo a Filosofia. São Paulo: Atual, 2002.
COTRIM, Gilberto; FERNANDES, Mirna. Fundamentos de Filosofia. 4ªed. São Paulo: Saraiva, 2016.
Imagem 1: https://knoow.net/historia/historiaantiga/acropole-de-atenas/ acessado em 29/04/2020 às 17h48
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